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Sobre os professores informais

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No âmbito do quotidiano a todos vai cabendo o papel ora de professores ora de alunos, ainda que quase sempre este desenrolar seja numa perspectiva informal.

Atentando sobre o papel de professor, a informalidade salvaguarda quaisquer lacunas, fraquezas e defeitos que tenhamos, desculpando-nos, na medida em que podemos sempre alegar não ser essa a nossa profissão.

Porque motivo somos professores uns dos outros no dia-a-dia? Muito provavelmente porque temos experiências, conhecimento ou ideias que merecem ser partilhadas, de onde talvez possa resultar um qualquer ensinamento.

Basta transportar essa informalidade com que se é professor para uma sala de aula e eis que tudo muda. A sala de aula legitima o professor, porque o coloca numa posição de destaque. Já não é o mero professor informal que ensina onde calha, num carro, num café ou num jantar, agora é o professor que ensina no local padronizado para o ensino. As salas de aula têm um código de conduta próprio, tem uma seriedade que restringe muita da forma natural de proceder, pensar e reagir dos alunos e do próprio docente.

Voltemos, porém, à questão dos professores informais, aqueles do dia-a-dia, e repare-se na forma como muitas vezes os professores que se apanha numa sala de aula são como professores informais aprisionados num cenário de sala de aula.

Há muitos que, mesmo tendo contactado com noções de pedagogia, e note-se que eu não as tenho, certamente não as colocam em prática. São pessoas que detêm conhecimento e se limitam a legitimar-se professores justamente por essa via, por deterem conhecimento. Mas eis que se pergunta se um professor é só isso, se basta ter coisas novas para dizer aos outros para que possa ser considerado um professor, na completa acepção da palavra.

Há nos do ensino superior algum desdém pelos do ensino secundário, mas parece-me que os últimos vão tendo mais preocupação com a pedagogia, do que os do ensino superior que se fecham em copas numa arrogância típica dos que têm a mania da superioridade. Muitos deles não passam de professores informais, aprisionado numa sala de aula, que nunca aprenderam a exercer esse papel profissionalmente. Infelizmente.

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Sobre os americanos, os europeus e o empreendedorismo

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Os americanos conseguem detectar nos europeus um pudor de errar. Olham para o lado de cá do Atlântico e verificam que as pessoas tentam atingir a excelência pela via da inexistência de máculas.

Eles afirmam que por lá um indivíduo pode cair e levantar-se várias vezes sem que as pessoas o tomem por tolo, medíocre, coitado. E ainda que os jovens têm mais condições para se servirem da sua criatividade no processo de criação e tentar pôr em prática o que engendram.

Por isso verificam que incorremos no risco de ser autómatos e seguir os padrões culturais que trilham a forma como se fazem as coisas, mais do que eles. Têm a seu favor o facto de serem a nação que mais encuba ideias no mundo, pese embora o seu favorável tamanho territorial.

Sou levado a aceitar estas críticas, notando que existe uma certa ortodoxia comportamental crónica, europeia, que leva a que o empreendedorismo europeu não seja efectivamente a mesma coisa que o empreendedorismo americano.

As pessoas valorizam desmesuradamente percursos repletos de sucesso, gente que é um ás a tudo, gente que não comete erros, gente que nunca falha. É assim na escola, é assim no trabalho, é assim na política, é assim. Ora é precisamente este conceito de sucesso que fere as hipóteses de sermos empreendedores como os americano.

Soaram ecos de empresários que se queixam disso mesmo, considerados responsáveis pelo desemprego, sem que se realce que foram eles quem correu riscos, quem se expôs ao perigo de falhar para conseguir empreender algo. O pessimismo com que vemos as falências da empresas mostra bem a nossa inadequação ao propalado método de tentativa e erro americano.

O nosso conservadorismo faz-nos subservientes do empreendedorismo alheio. Aonde estão as rampas de lançamento para que qualquer cidadão possa tentar pôr uma ideia ou um projecto em prática? Basta ver como nos ligam, da banca, a perguntar se precisamos de uns trocos para comprar uma televisão gigante ou um carrito a gasóleo, mas não há memória de haverem perguntado se era preciso dinheiro para montar um negócio, da mesma forma despreocupada com oferecem dinheiro para o consumo convencional.

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Sobre a experiência e as previsões **

Imagem: Francesco e l'elefante - Stefano Bombardieri

Costumamos interpretar as previsões, recomendações e conselhos por parte das pessoas mais experientes sem darmos conta de como a informação acumulada ao longo de anos não tem o mesmo valor dependendo da questão em jogo.

Tendo em conta de que basta um acontecimento para invalidar uma regra mas que é preciso uma infinidade de confirmações para a validar, a experiência acumulada pelas pessoas tem especial valor se for aplicada no primeiro caso, passando a mais discutível no segundo.

Uma pessoa experiente poderá recomendar a alguém que tenha precaução porque há pessoas que ficam sem dinheiro de forma inesperada, baseando-se nas vivências acumuladas. Nesta intervenção, deve-se realmente respeitar seriamente a recomendação. Contudo, repare-se que se a mesma pessoa experiente dissesse, igualmente no alto da sua experiência, que determinada pessoa irá ficar sem dinheiro de forma inesperada considerando a sua forma de ser, a sua experiência de pouco serve, porque não chega para sustentar a informação veiculada.

É importante chamar a atenção para isto, porque muitas vezes se confunde os dois tipos de situação, o que leva a que se possa ignorar os mais experientes quando deveriam ser considerados seriamente, ou a ficar animicamente condicionado por posições de frágil fundamentação por parte deles.

Ao longo dos anos de vida vamos sendo surpreendidos pela ocorrência de coisas inesperadas, sendo exactamente o conhecimento que advém das sucessivas surpresas que é apropriado aos juízos com base na experiência. Só porque nunca se viu uma pessoa que alcançasse determinado objectivo ao longo da nossa vida, isso nos não legitima a afirmar categoricamente que ninguém o irá alcançar.
Confundimos a raridade de alguns eventos a com a certeza da sua não ocorrência, pelo que muitos são os que escudam erroneamente as suas previsões na experiência dos anos de vida.

Publicação original: 28-01-2009 

Revisão: 30-07-2016
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Sobre a escrita movida a agastamento

                      
The Lost Correspondent - Jason Decaires Taylo - 2012 ©
 

A escrita movida a agastamento é uma modalidade a que recorro quese sempre que o trilho da vida é pontualmene menos risonho.
Gostava de exaltar o prazer de escrever um texto alheado para os problemas que estejam a bater à porta para entrar, para as horas e aquilo que elas significam, para os objectivos de amanhã ou depois de amanhã, o simples, inocente, despreocupado, pacífico, calmo, divertido, prazeroso acto de escrever um texto.

O ser movido a agastamento não implica que transpareça na escrita o sentimento negativo. Para mim, saber que posso dar uma escapadinha para o textos com o mesmo sentimento de alívio com que as pessoas dão uma escapadinha ao Algarve, constitui um garante do meu equilíbrio. A motivação é condição chave para se escrever convictamente, sendo nisto que o agastamento por vezes sentido actua cabalmente. Se me puser a escrever sucessivas intervenções sem perda de motivação, saberei que quando cair exausto terei investido o meu tempo num processo de aprendizagem bastante mais recomendável do que aquele que normalmente surge na ausência desta fuga para a escrita: atormentar-me a ponto de um ataque de ansiedade, nervos e agonia em torno do elemento perturbador.

Repare-se como é bom poder evitar remoer aquilo que nos está a querer consumir, pela redacção de um texto. Se por vezes se pode duvidar daqueles escritores que afirmam escrever para eles próprios, não dando grande relevo ao papel dos leitores, talvez se consiga perceber que a escrita tem um efeito no escritor, que no caso em questão, passa pela intencional alienação dos assuntos que lhe provocam mal estar e consumição.
De certa maneira concordaria em comparar a escrita com um falar sozinho, mas sou rapidamente invadido por um sentimento de discórdia: aqueles que falam sozinhos sabem que o tema não é escolhido, antes imposto pela mente, segundo critérios próprios de importância dos assuntos.
Se me perguntarem quanto tempo demoro a escrever um texto, ao fim de tantos que já escrevi, seria obrigado a dizer que não sei bem. Há textos que quase se escrevem a eles próprios, pedindo ao autor que seja somente um portador da sua própria escrita.
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Sobre as reivindicações sindicais

                       

Elements of Divided Cause - Kishio Suga (2017)

Geralmente as batalhas por direitos são alocadas a sindicatos, que pretendem salvaguardar os interesses das classes que representam, fazendo-se ouvir nesse sentido.

Raras são as manifestações intensas e paralizadoras que não tenham fins laborais ou económicos atrelados. Tivemo-las há pouco tempo pelo encerramento de centros de saúde, ainda que de certa forma partilhem o cariz interesseiro que faz com que os manifestantes não estejam mobilizados pelo bem comum do país.

Os cidadãos poderiam juntar-se e reinvindicar melhores condições em áreas como a saúde, a educação, a cultura ou a justiça. Reivindicar a mediocridade de muitos serviços públicos, pelo único objectivo de fazer os políticos atentar ao assunto.

Porque não acontecem então, tais reivindicações? Pela simples razão de que o espírito interesseiro reina entre nós. Fazemos barulho se nos vierem chatear ou à nossa classe, mas nunca como produto de uma autónoma análise da realidade e respectivas necessidades. Os sindicatos não conseguem avançar com propostas que visem melhorar o campo profissional em que se inserem sem que seja para se trabalhar menos ou ganhar mais, eis o seu cancro.

E quando insisto nas carências nacionais para a prática da reflexão, proclamando-as nos meus textos, falo também disto, da incapacidade para as pessoas se sentirem mobilizadas para participar civicamente na melhoria das coisas enquanto portugueses que querem contribuir para o sucesso da sua nação. Contribuintes não deveria ser a designação exclusiva dos que pagam impostos, mas também dos que contribuem para o bem comum de formas não monetárias. Não basta pagar os impostos.

No ramo que me toca, os alunos somam à incapacidade nacional a imaturidade que os faz vítimas do sistema de ensino, na medida em que não têm capacidade de se afirmarem sequer da forma como os sindicatos fazem, quanto mais de forma construtiva para o bem comum.

Os alunos partilham com os utentes da justiça, da saúde ou da segurança social, o benefício de conhecerem empiricamente o sistema, o que corre bem e o que falha, pelo que esbanjam diariamente a possibilidade de contribuir para as reformas, que depois criticam nos governos, pela susceptibilidade de ferir os seus interesses. Mas aí já é matéria para sindicatos.


Original: Janeiro 2009

Modificação: Julho 2023 

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Sobre as concepções estéticas

       
Sacré corps III 2/5 - Anthony Mirial


* * *

Quando se fala sobre o assunto, muitas pessoas dão conta da enome irrealidade que paira nas concepções estéticas que se consegue identificar como cânones dos tempos modernos.

Surge depois uma certa confusão sempre que se procura afirmar que só uma minoria de pessoas tem os atributos realçados por essa linha mestra que rege o conceito de belo e perfeito, e que, por conseguinte, não se percebe porque motivo é o mundo governado por tais padrões.

Desarmados e despreocupados, aí estaremos nós algum tempo depois a olhar para actrizes, modelos, cantoras, entre outras, apreciando a beleza que emana da sua presença em nós. Esta inconsistência denuncia a nossa incapacidade de inverter a estrutura divinização estética.

Acontece que é exactamente o facto de a maioria das pessoas não ser assim que torna atractivo o conceito estético vigente. O facto de serem minoria representa por excelência a condição necessária para o estrelato, para o gaúdio generalizado.

As pessoas, contudo, não estão presas irremediavelmente a essa teia. Mediante o recurso propositado aos poderosos meios ao dispôr, os mesmos que promovem os padrões estéticos que vigoram, é possível criar alternativas, fomentar concepções díspares. Produções cinematográficas que cuidadosamente procuram heróis condizentes com aquilo que se pode entender por pessoas normais, como me parece ser comum no cinema francês, são de saudar.

Também no universo musical, o exemplo recente de um cantor que popularizou um refrão apologista da beleza das meninas gordas, permite inferir que estão mobilizados no terreno mentes que sabem o que é preciso fazer para acabar com este monopólio estético.

Para bem da saúde mental das pessoas, seria importante permitir o crescimento das alternativas estéticas, para que as pessoas deixem este regime de exclusividade que as faz suspirar por princesas e príncipes encantados irreais e insustentáveis fora do plano conceptual. A maior parte de nós, senão a totalidade, acabará por ser uma pessoa normal, a forma como nos vemos será de uma pessoa normal, mesmo que alcancemos algum dia o estrelato.

É esta normalidade que temos de começar a saber apreciar também, pois ela esconde um mar de outras belezas e perfeições que por ora andam eclipsadas

Publicação original: 26-01-2009 
Revisão: 14-08-2016
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Sobre os concursos literários

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Por mais do que uma ocasião terei pesquisado sobre concursos de literatura, onde me pudesse inscrever de forma a mostrar o trabalho que desenvolvo de espontânea vontade e motivação própria.

Esbarro num aspecto decisivo: a categoria em que se insere aquilo sobre o qual escrevo.

Estas competições para a juventude poder mostrar os seus dotes, não me serve porque eu não me dedico à ficção. Enquando leitor, gosto desse género mas não me sinto tão motivado para construir enredos hipotéticos cuja finalidade seja meramente artística e de entretenimento.

Porventura seja pertinente perguntar-se porque motivo escasseiam ao ponto de inexistir, perdoe-se-me a ignorância caso se esteja redondamente enganado, iniciativas que visam premiar produções não-ficcionais, mais concretamente reflexões, produzidas por jovens. Conformo-me cada vez mais com esta lacuna, ao ponto de correlacioná-la com a falta de apetência dos jovens para pensar no estado das coisas, para encontrarem um rumo certo sem terem de experimentar os errados ou mesmo com alguma imersão em temas estéreis do ponto de vista reflexivo. De onde partem, hoje, os estímulos para produzir material literário com base na observação, interpretação e discussão do mundo?

Uma parte dos jovens que conheço e que têm de alguma forma uma afinidade com este género, enveredou pela política, em alguns casos concretizada pela afiliação partidária, como forma de progredir e ganhar créditos neste tipo intervenções. A política é um universo apetecível, mas constitui uma forma de tornar particular este género de escrita, senão repare-se em como a política, enquanto tema único, restringe largamente as reflexões. A fraqueza da política é que absorve os temas mediante o seu interesse momentâneo, sendo as reflexões dessa natureza movidas ao mediatismo instantâneo.

Estou por assim dizer condenado a não poder competir com outros escritores, formalmente, o que é mau porque seria bom de ver, já que as críticas a reflexões dão muito mais luta do que as considerações subjectivas inerentes à arte, das quais me subtraio terminantemente.

Em suma, aguardo a criação de um género literário compatível com o meu estilo de escrita, caso contrário terei de o inventar à minha maneira, cada vez mais.

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Sobre o jornalismo medíocre

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Recentemente, duas declarações feitas num contexto específico foram transportadas para um âmbito mais geral e como tal desfasado, colocando consideráveis problemas mediáticos aos emissores de cada uma delas.

Tenho vindo a incidir bastante nos órgãos de comunicação social, muito devido ao livro “Portugal Hoje, O medo de existir”, estando agora bastante mais desperto para as agruras que se fazem, vivem e sofrem no mundo jornalístico.

Repare-se na sórdida tendência para o sensacionalismo que é ir buscar declarações de um cardeal feitas num contexto próprio, no qual também terá certamente frisado aspectos positivos sobre o assunto em causa, e pôr no ar a parte negativa daquilo que disse, sem que o telespectador perceba o enquadramento, linha de raciocínio ou ambiente que se vivia na sala onde decorreu a palestra. Isto fere-me enquanto candidato a pessoa equilibrada, porque não consigo ver neste tipo de trabalho a imparcialidade, honestidade intelectual e brio profissional que deveriam ser inquestionáveis face à responsabilidade afecta a essa actividade.

No dia seguinte a esta malvada manobra jornalística, constatei um efeito imediato. Alguém que consumiu aquela informação e foi vítima dela: assumiu um preconceito para com os muçulmanos motivado pelas declarações do cardeal.

Não escrevo este texto para discutir aquilo que foi dito pelo senhor cardeal, antes para perguntar quanta da culpa pelo preconceito que em primeira pessoa constatei está no referido senhor e quanta se deve à oportunista ingenuidade de fazer uma peça jornalística que vende as declarações como se tivessem sido feitas em abstracto.

O segundo caso surgiu dias depois, quando uma atleta do maior clube do mundo se desloca a uma escola primária lisboeta e, em resposta a uma questão colocada por uma criança sobre o que dizia o treinador ao intervalo quando estavam a perder, terá dito, porventura num tom adequado à idade do interlocutor, que o treinador fala mal dos jogadores. É concebível que esta declaração seja capa de um jornal desportivo no dia seguinte?

Com toda a sinceridade, não entendo como os jornalistas se permitem este tipo de lixo que só rebaixa a profissão na sua globalidade e os descredibiliza desmesuradamente.

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Sobre o que pode ser a introspeção


Introspection - Levi Justice (2023)


Aqueles a quem a introspeção não surge como algo natural, como prática comum e rotineira, poderão concluir precipitadamente que é uma atividade que se concentra na análise do percurso da pessoa, com grande ênfase no passado. Ouso perguntar-me o que será a introspeção e como explicá-la aos menos familiarizados com ela ou aos que possam não saber que a praticam.

No meu entender, a introspeção é uma atividade mental que visa transportar para uma via consciente os processos de análise, juízos e conclusões que nem sempre são conscientes, procurando pela via da consciencialização apurar as posições e pensamentos dominantes na mente.

É seguramente mais díficil defini-la do que colocá-la em prática. Está é como que uma ferramenta de controlo, recomendável a qualquer um, que permite harmonizar a relação do homem com o mundo em que vive, mas não necessariamente o mundo físico em que vive, dado que existe um universo mental sobre o qual a atividade mental também se debruça e que é também um mundo, a somar ao físico.

Para alguém que não costume praticar a introspeção suponho que os temas sobre os quais pensar começam pelas questões existenciais, difíceis de resolver mas sem dúvida importantes (o que é vida?; qual o significado de morrer?; Deus existe?) A partir destas, a prática conduz a temas menos óbvios, podendo ser um ponto de partida para a entrada em muitas outras áreas. Pode-se refletir sobre história, política, ou filosofia sem dominar a informação canónica sobre estas, basta pegar naquilo que se sabe e procurar organizar, digerir e por fim retirar uma conclusão ou aspecto premente.

As pessoas que rezam possuem um espaço mental que serve perfeitamente para a introspecção. Estão habituadas a momentos de atividade mental focada numa atividade próxima da introspecção, que só não é a mesma coisa devido às restrições que impõe. Quem reza, geralmente procura a introspecção para poder concluir em que aspectos falhou moralmente, subaproveitando o espectro de conclusões que poderiam advir do mesmo processo caso não o aplicassem em exclusivo a essa missão.

A título final, diria que a introspecção começa como um exercício voluntário, até que adquire um carácter natural e recorrente, tornando-se, ouso dizê-lo, numa saudável forma de vida.


Publicação Original: 01/2009

Revisão: 05/2025

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Sobre a confirmação das fontes de informação

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A confirmação das fontes de informação é algo maçador e de certa forma, até, contranatura. As pessoas, que se regem cada vez mais pela lei do mínimo esforço, são tentadas a aceitar como verdade aquilo que ouvem, a menos que não lhes convenha de todo. Ouvem o que no telejornal se diz, lêem o que no jornal se escreve, escutam o que no local de trabalho se comenta e muito provavelmente assumirão como verdadeiro, por nada em contrário lhes ocorrer.

Na maior partes dos casos, as informações não nos dizem respeito directamente, pelo que não somos minuciosos na sua filtração, não confrontamos diferentes versões procurando desvendar as incongruências.

Algumas pessoas têm aversão à Wikipédia, por facultar informação questionável do ponto de vista de fiabilidade. Concordo com elas. No entanto, cada um de nós é alvo de informação questionável à sua maneira, talvez essas mesmas pessoas leiam um jornal e acreditem piamente no que lá se relata, não indo confirmar as informações ao jornal concorrente, ou tenham um amigo que enviesa completamente os factos futebolísticos, criando intriga.

Entendo, porém, que a internet seja uma ferramenta instigadora da inconfirmação das fontes, pela facilidade com que se chega às informações. Facilmente se confunde qualidade de pesquisa com pesquisa de qualidade.

Quando ocorre um evento súbito, ao ponto de não ser possível qualquer tratamento jornalístico atempado, geralmente são fornecidos recortes do evento a que commumente se chama “imagens não editadas”. A priori, este é o melhor material jornalístico que se pode consumir, na medida em que o telespectador não depende tanto de intermediários para chegar à informação e pode ajuizar o caso alvo de noticiamento. Como tal material é raro, na totalidade das notícias aquilo que se faz é concluir, inferir, ajuizar aquilo que o jornalista transmite, não a informação crua (não editada).

O mesmo se aplica ao quotidiano e à Wikipédia. A existência de intermediários que mexem, editam, adulteram, contaminam os factos, leva a que o consumidor da informação se iluda e pense que está a contactar com a matéria factual, quando na verdade está a lidar com o produto da organização, hierarquização, filtração e narrativação de outrem.

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Sobre a difusão de informação não confirmada

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A enfermeira, senhora sénior, informou a determinada altura que nunca se podem comparar pesos de bebés, cuja medição foi executada em balanças diferentes. Para a sua profissão e atendendo à clareza com que deve explicar as coisas aos pacientes, aceita-se que fale assim.

Estarei portanto a especular, intencionalmente, se afirmar que aquela senhora não sabia a causa científica que justifica aquela frase. Ela é simples, deve-se a considerações sobre a gravidade e a altura relativa entre as duas balanças. Se o soubesse, maiores teriam sido as probabilidades de perguntar à mãe da bebé, tal como fiz, sobre a localização dessa outra balança onde havia sido pesada a bebé. Pois bem, ficava num 9º andar contra o 1º andar do posto de saúde, o que condizia com a explicação.

Dei comigo a pensar em como muitas profissões são compostas por estas frases feitas, este conhecimento empírico que resulta da passagem de conhecimento das pessoas mais experientes para as mais joviais, sem que em momento algum haja algum tipo de confirmação dos dados.

A única forma daquela infermeira confirmar a frase e saber se dizia algum disparate ou não, seria pelo conhecimento de ciência básica, noções simples de gravidade. Já anteriormente chamei a atenção para o assunto da erudição e cultura geral. Saber algo sobre a gravidade equivale a ter noção do que são os Maias, no mundo literário.

Quando sabemos explicar as coisas, o ego leva a que o façamos mesmo que não nos seja solicitado. Esta perspectiva dá ainda mais força à ideia de que a senhora enfermeira desconhecia o mecanismo natural por detrás da informação fornecida.

Na linha do livro que venho lendo (O Cisne Negro) no qual se chama a atenção para que há profissões em que especialistas não sabem mais do que o cidadão comum, não pude conter um paralelismo com a situação em causa. A enfermagem não será o melhor exemplo disso, mas é a acumulação de informações não processadas mas repetidas e difundidas que faz com que se possa relativizar a existência de especialistas em algumas área.

Tagarelar assim informações é um risco e uma evidente falta de curiosidade intelectual.

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Sobre a teoria do conectivismo




Fui confrontado com um artigo de natureza pedagógica, no qual se afirma que de há 10 anos a esta parte o conhecimento no mundo duplicou e que agora duplica a cada 18 meses.
Perante este dado é bom pensar que num curso superior de 5 anos a informação pode quadruplicar enquanto se frequenta as aulas para tentar aprender alguma coisa. Levantam-se, como tal, questões pertinentes sobre o sentido e actualidade de aprender teorias e fórmulas mágicas, sob uma aura dogmática de verdade imputada a tais formulações, quando o conhecimento está longe de se domar por uma perenidade compatível com esta parcimónia com que se é obrigado a aprender.
No mesmo artigo, realça-se a importâcia de desenvolver mecanismos internos eficientes para seleccionar informação útil de entre a abundância que existe. Vai até mais longe, afirmando que nesta era digital, a aprendizagem está essencialmente no interrelacionamento e criação de redes de contacto com outras pessoas. E que belo é este conceito, apetece-me dizer: a aprendizagem residir na componente relacional e não na matéria informativa em si que, pela sua caducidade, não deve prevalecer no processo de aprendizagem.
Adiante soube também que na linha deste raciocínio, os alunos devem esquecer o modelo baseado no saber “o quê” e “como” para um desconhecido modelo assente no conceito de saber “como/onde”, num claro desafio à determinação das fontes para a informação pretendida.
O senhor canadiano que defende semelhante tese, acredita que é altura de introduzir o efeito da tecnologia na gestão do conhecimento, sobretudo porque a tecnologia tem vindo a revolucionar o panorama do conhecimento, perturbando dogmáticas doutrinas de ensino que perduram sob protecção de imponentes cátedras que dominam de forma impositiva as alterações do ensino.
Este é o tempo de detectar padrões e saber sobreviver no meio de carradas de informação desconexa, também isto aprendi. Não é tempo de nos fecharmos a estudar um problema como se o nosso futuro dele dependesse, para chegar ao mercado de trabalho e verificar que aquilo nunca passou de um desvario de quem está deslocado da realidade devido ao fechamento intelectual em que vive.
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Sobre o decréscimo de telespectadores

52570JoQN_w Observando a agressividade com que os canais de televisão de sinal aberto disputam os telespectadores, pergunto-me se esse não é um problema a curto prazo da televisão, cuja preocupação não deveria suplantar o dos problemas decorrentes da diminuição do público da televisão pela dispersão para outros formatos.

Não há dia que não se ofereça dinheiro nos diferentes canais de sinal aberto, com a excepção conhecida. Manhã, tarde, noite, madrugada, em todos estes momentos há programas que aliciam o telespectador a não mudar de canal, muitos deles ridículos pela forma patética e anedótica com que fazem render o peixe, passo a expressão.

As pessoas que vivam da televisão deveriam pensar bem no que se está a passar, porque correm o risco de perder o emprego dentro de alguns anos. Andam entretidos a ver as estatísticas e verificar se estão à frente dos concorrentes ou não, se determinada opção é um sucesso ou não. Alegram-se por superar a concorrência e vivem nessa concorrência acentuada quando talvez fosse mais sensato e inteligente juntarem-se e pensar no tipo de soluções que terão de acordar facultar para contrariar a perda de telespectadores, perda esta que não tenho dados estatísticos que s confirmem, mas que se baseia na minha observação dos hábitos da pessoas.

Presa a produtos praticamente intocáveis ao longo de anos, que mudam de grafismos mas permanecem semelhantes ao que eram na data do lançamento, a televisão corre o risco de sofrer na pele aquilo que sucedeu com a rádio: tornar-se num suplemento.

O futuro passa pelo desmembramento dos canais de televisão convencionais, da forma que os conhecemos, para serviço personalizado, focalizado nos interesses dos telespectadores.

Ora os canais abertos, proporcionam hoje uma grelha restrita a um tipo de interesse para cada período do dia, nem sequer conciliam novelas à segunda com filmes à terça, sérias à quarta, documentários à quinta e debates à sexta, no mesmo horário, como deveria ser para atrair públicos diferentes.

Andam ofuscados pelo peixe do lado e não conseguem perceber que o aquário está a perder água. Ninguém tem culpa de não se rever no serviço prestado pelos canais de sinal aberto.

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Sobre a disciplina e a democracia

350867oTvs_w Com o advento da democracia, da preocupação com a ética como forma de demonstrar civilidade, perdeu-se muita rigidez na educação e ensino, sob o pretexto de ferir ou perturbar o saudável desenvolvimento das crianças. Um exemplo disso é a discussão em torno da legitimidade dos pais darem umas palmadas nos filhos como mecanismo de correcção.

Gostaria de associar esta flexibilidade na educação e ensino, suportada por estudos, relatórios e dados estatísticos, à manifesta indisciplina que reina na existência de muita gente, da qual não me excluo.

O sentido de dever não domina a personalidade, pelo que, perante uma situação em que não exista manifesta obrigação, dificilmente qualquer jovem de hoje não cairá no ócio. A falta da disciplina enquanto tónico do espírito que conduz à responsabilidade e sentido de obrigação interno, tem por resultado a dependência de estímulos externos para que as coisas se façam, surjam, concretizem.

Numa sociedade eminentemente disciplinada, os prazos são cumpridos porque o trabalho foi bem repartido pelos dias disponíveis para a sua concretização, não porque se fez uma directa na véspera e se começou a trabalhar no assunto escassos dias antes.

Reconhecer isto representa uma tristeza para mim, visto que também eu sou exemplo deste cenário tão pouco condizente com a excelência que devemos procurar atingir. Resta-me especular se não é esta uma consequência do amadurecimento democracia, no particular ser inconportável com qualquer solução rígida e tender sempre para os meios termos, com medo de que se esteja a ferir as liberdades e garantias dos cidadãos.

Cumprir horários, não ceder a vícios, comportar-se com apuro, sacrificar-se pela causas e deveres, tudo exemplos de onde está a faltar disciplina. Estes meios termos com que vamos condimentando a educação e o ensino abrem alas para uma difusa mentalidade adulta de extremosa mediocridade, a qual poderá ser contrariada através de pontuais capacidades específicas que se emancipem da generalidade.

Este ócio em que caimos justifica-se obviamente pelo gozo que dá, pela fuga da mente para o prazer, mas é como um fruto proibido, uma indevida libertinagem que testa diariamente a disciplina adquirido depois de anos a fio de educação e ensino democráticos e eticamente provectos.

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Sobre a morte enquanto viagem

26652_w Cristãos e islâmicos partilham um conceito de morte parecido. Para isto basta pensar na forma como projectam a morte como uma viagem ou travessia para parte incerta. Indendentemente de se acreditar na ida para o céu ou para um harém repleto de virgens, subjacente ao enredo persiste e crença quede que a morte é uma jornada.

Se a morte for encarada simplesmente como a não-existência, deixando de parte este artíficios de natureza religiosa, julgo que, para os que ficam, a saudade e a pena são mais fáceis de controlar.

Chorar a morte enquanto uma ida para o céu dá uma componente muito mais humana, torna-a inteligível e permite que insconscientemente se acredita de alguma maneira que a morte é relativa. Pelo contrário, chorar a morte enquanto oposto da existência, pensada desta forma crua que não introduz narrativas, é somente a tristeza da constatação do absolutismo do fenómeno.

A ida ao cemitério diz muito aos que acreditam na ida para o céu, talvez por representar como que a estação ou paragem de onde partiram e de onde insconcientemente se esperará pelo regresso. Para os não crentes na morte enquanto viagem, o cemitério contém pura e simplesmente os restos mortais, genuína biomassa, não havendo naquele lugar simbolismo maior do que haver constituido a última vez em que se viu o morto.

Sinto-me na obrigação de ressalvar o direito à tristeza de cada um. Não é, contudo, a tristeza resultante da afectividade para com o falecido que está em causa, antes a componente da tristeza que resulta da forma como se pensa a morte. Deste modo, aceito que se olhe para o lugar vazio na mesa e se sinta tristeza devido à nostalgia, mas não que se chore porque ainda não se está mentalizado do absolutismo do evento, para o qual, repito, contribuem as crenças de que a morte é uma viagem.

Repare-se que quando se crê numa viagem, consequentemente se acredita na continuidade do ser, da pessoa, e daí surgir a dimensão relativa da morte: a pessoa chora e reza porque não acredita que o falecido esteja morto de maneira absoluta e irremediável, perdoe-se-me o paradoxo.

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Sobre o entendimento e resposta à pobreza

219593SXaw_w Suponho que muita da dificuldade em minimizar o problema da pobreza, erradicar será sempre uma utopia que resulta da dimensão relativa inerente ao conceito, muita da dificuldade, dizia, resulta da porventura errónea definição de pobreza que cultivamos para nós mesmos.

Talvez seja bom esclarecer à partida se um ser humano pobre é aquele que não tem recursos com fartura ou aquele que não tem cabeça para os saber gerar e gerir.

Não ter recursos é um estado (temporário) mas não saber lidar com o dinheiro quanto à sua geração e gestão é uma condição.

Sem fazer esta distinção não se concebe uma resposta condizente com o problema da pobreza. Vejamos que é mais fácil solucionar um estado que arranjar solução para uma condição. É o magnífico provérbio chinês da cana de pesca e do ensinar a pescar a frutificar a sua mensagem uma vez mais, sinal de que os problema de hoje não exigem necessariamente respostas novas.

Dar dinheiro aos pobres é resolver a pobreza enquanto estado, porque se procura resolver a pobreza atribuindo verbas para acelerar a temporalidade de não haver recursos. Este dinheiro, por não incidir na pobreza enquanto condição, poderá satisfazer o presente mas não evita que a falta de dinheiro volte à realidade dos pobres ajudados. Daqui por uns anos as pessoas ajudadas precisarão de mais dinheiro e, a menos de algo que delas não dependa aconteça, assim permanecerão.

Os pobres precisam de formação específica intensa: não tenho dúvidas de que se as pessoas dos bairros sociais pudessem receber uma bolsa para estudar gratuitamente e desenvolverem noções de economia, de empreendedorismo, de gestão, à saída do último dia de aulas a sua pobreza seria mais um estado do que uma condição. Há que investir nisto, convictamente e com agressividade!

A pobreza como condição é a pobreza de espírito, aquela que mina o sucesso familiar e profissional porque é propícia à falta de consciência das coisas, levando à precipitação e à incapacidade de encontrar respostas cabais aos problemas enfrentados.

O pobre não tem de saber quem foi Kant, mas deve saber como funcionam os juros compostos.

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Sobre a despreocupação na privacidade

160659cHjG_w A dádiva de dados pessoais anda à solta. Devota-se muito pouca preocupação às contrapartidas que as empresas exigem em formulários cansativos de preencher, sob a bandeira de constituirem informações cruciais sobre o cliente.

Hoje barateiam-se informações pessoais na rede, mas não só, sem que as pessoas sintam o devido peso inerente a essa partilha de dados sobre a sua pessoa. Movidas pelo fim que têm em vista, os meios nem sempre são devidamente interpretados e analisados à luz do respeito pela confidencialidade.

Permito-me pensar que as empresas, cuja caracterização passa comummente pelas designações de sociedade anónima ou pessoa colectiva, exigem aos clientes aquilo que não são capazes de dar: identificação e identidade. Aquelas cuja actividade tem uma morada permitem que se saiba algo sobre elas, contrariamente às empresas da rede em que por uma infinidade de funcionalidades aliciantes nada dão em troca sobre elas.

Alicia-se com descontos os clientes e induz-se à fidelização pela criação dos conhecidos cartões de clientes, autênticos pretextos para lhes saber a morada que será entupida com publicidade, rendimento mensal, que servirá para avaliar a propensão a créditos e pagamento a prestações, entre outros: tudo isto por uma percentagem de desconto nas compras.

Todos os que detêm contas de correio virtual recebem diariamente lixo não solicitado, que resulta da forma leviana com que introduzimos dados pessoais, no limite só o endereço de e-mail, um pouco por aí, numa actividade que seria semelhante a andar pelas ruas com cartões de identificação a dar a qualquer pessoa que víssemos.

As preocupações parentais advêem também desta fragilidade, visto que se nem eles estão a salvo dos ataques furtivos da dádiva de dados confidenciais, quanto mais os seus rebentos.

Abstraímo-nos, também, de que o acesso à rede se concretiza por meios telefónicos, e que também aí existem registos de onde se pode monitorar a actividade de cada um.

Chegará o tempo em que a sociedade ganhará uma maior sensibilidade a estas facadas na privacidade, porque agora ainda andará iludida com as facilidades de usufrir aparentemente de graça de um largo espectro de serviços e facilidades que usurpam subtilmente a identidade para fins nem sempre claros e saudáveis.

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Sobre a vida privada e a vida profissional

394875INQM_w Fez agora um ano que o país acordou com a notícia de alguém que, desempenhando funções de fiscalização numa autoridade cuja fama é controversa, supostamente desrespeitou uma nova lei que entrava em vigor, no sentido de proibir o consumo de tabaco em espaços fechados.

Este caso, embora em épocas, situações e graus hierárquicos distintos, pode ser comparado ao do presidente norte-americano que teve uma relação extraconjugal com a sua secretária. Há algo que os liga, que é a enorme tendência para o irracionalismo no povo, acicatado ou encetado pelas notícias e por todos aqueles que recorrem a um sensacionalismo que apela à emocionalidade do público.

Há que saber separar a função profissional da vida privada. Os juízos de valor que possamos fazer, aliados à fundamentação da condenação de ambos os casos não pode ignorar a barreira da liberdade de cada cidadão, para cumprir ou não cumprir as leis existentes, desde que aceite as penalizações que daí decorrem.

À parte a discussão que poderia ser gerada quanto à ética inerente a estes casos, penso que não há motivo para pensar que alguém que seja presidente ou que seja director de uma autoridade de fiscalização não possa incorrer em contra-ordenações ou crimes, porque do mesmo modo que quando votam não passam de um eleitor singular cujo voto vale tanto como o dos outros, também no que toca às demais questões há que saber respeitar a igualdade de direitos.

Os americanos julgaram que aquele incidente dizia respeito à vida privada do presidente, não lhe retirando confiança política para governar o país. É importante ressalvar que a partir do momento que se admite que determinado incidente é do foro privado, deixa de poder ser imputada qualquer penalização respeitante ao desempenho profissional. Só os crimes ocorridos no âmbito profissional é que têm o direito de prescrever a legitimidade para se sair incólume do incidente: sem esta achega estar-se-ia a dar cobertura aos corruptos e desonestos, como na política sempre vão aparecendo.

Talvez seja uma característica latina esta a de não conseguir analisar com racionalidade este tipo de dilemas éticos e avançar sem demora para a condenação, sintomática porventura da frágil estruturação mental que nos é apanágio.

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Sobre Portugal e a Comunidade Europeia

291760kPso_w A localização geográfica faz parte da identidade de um país. No caso de Portugal, a pertença ao continente europeu, esbarra na impossibilidade de galgar mar adentro. Mais facilmente se pode questionar a pertença à Europa a outras do que à nação lusa.

O nosso país, desde a entrada na Comunidade Europeia, mudou de paradigma, caindo no que hoje se vê: não mais é o país que faz algo pela Europa, antes a Europa é que faz muito pelo país.

Os fundos comunitários foram o agente persuasor desta dolosa mudança. O impacto do dinheiro fácil vindos dos cofres europeus para financear um pouco de tudo e um todo, muitas vezes, para nada, devolveram à procedência a responsabilidade que qualquer nação deve ter no sentido de se saber gerir e sustentar. Após o regime parasitário do autoritarismo, Portugal despacha o fulgor revolucionário potencialmente benéfico ao se deslumbrar com a Comunidade e seus cofres, perpetrando a inabilidade para se saber pensar enquanto país, instaurada antes pelo ditador.

Hoje a falta de responsabilidade na governação, aliada a uma participação cívica medíocre, comprovam a forma como não há tino próprio nem um rumo que possa reconhecer-se internacionalmente como o rumo Português. Não, estamos condenados a aceitar a Europa como um paternalismo alienador, que nos leva deixar que alguém em Bruxelas resolva e decida por nós o rumo, pois nós concordaremos desde que continuem a chegar verbas para, com a idêntica irresponsabilidade, as gastar a bel-prazer dos eleitos pelo irresponsável povo.

Encapotado sob a bandeira da comparticipação, Portugal endivida-se e entra no despesismo imediato, aquele que constrói coisas vísiveis. Acontece que um país, no actual contexto do mundo, transcende a barreira física e deve investir no que se não vê, com muita ênfase na educação. Esta área, aliás, espelha bem a irresponsabilidade do país, dado que os investimentos em educação pouco ou nada implicam a desactualizada pedagogia, tão carente de reformas, mas sim o edíficio escola, que garante comparticipações.

A Europa é o salvador que nos resolve os problemas todos, de quem esperamos nunca parar de jorrar mesada. Triste tempo este, ó mar nunca dantes navegado!

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Sobre a crise económica

433463InQM_w Expressão que circula pelos círculos comunicacionais um pouco por todo lado, a crise é já uma entidade contemporânea com existência aparentemente comprovada.

Engasgo-me ligeiramente perante a aceitação da existência de uma crise económica, já que, a ser crise, não o é apenas do ponto de vista económico, como soam as trombetas diaramente, mas uma crise bem mais vasta e abrangente: moral, cultural, espiritual, mental ou puramente existencial.

Dessa crise económia que tanto se trauteia, tenho apenas a dizer que para a esmagadora maioria das pessoas o desafio não é maior do que deixarem de consumir os supérfluos que vêm consumindo, como gadgets ou viagens para fora. Para esses, a inexistência da percepção de que é só isto que está em causa mostra bem o quão interiorizado está o consumismo. Convido-os a encontrarem alternativas gratuitas a essas fontes de prazer, bastará uma dieta ao consumismo para a crise desaparecer.

Aqueles que devem preocupar qualquer cidadão são os infelizes que pertecem ao grupo dos empregos sazonais e de baixa qualificação, muitos dos quais somam o desemprego ao martírio social em que vivem, realidades familiares aterrorizantes. Esta sim é a crise, uma crise que antes já existia e que se agrava a cada vez mais ou pelas doenças e falta de recursos para as tratar, ou pelo abandono escolar e a incapacidade de obter melhor formação para si e filhos, ou ainda pela forma displicente com que gerem o dinheiro, por falta de organização mental para se governarem e o gerirem conscientemente. Faltam políticos a vestir a camisola desta causa, a esquerda apoia-se no sindicalismo de sarjeta ou no vazio da demagogia.

A crise económica é uma fracção da Crise, deve muito a outras crises, como à crise moral, que determina a cavalgada da ganância de ganhar dinheiro, ou à crise mental que move tanta gente para os patamares da depressão, alienação, insanidade.

Não nos confundamos quanto à crise, pois tão certinho como elas serem várias e não uma, como pintam os jornalistas e comentadores, é resultar do consentimento de muitos que deveriam ter agido para a combater mais cedo e a quem não lhes bate certamente à porta.

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Sobre o póquer e a atitude na vida

85569uBDA_wO jogo do póquer, que nos últimos tempos tem ganho uma legião de adeptos pelo mundo inteiro na versão Texas Hold'em, serve de perfeito ponto de partida para uma reflexão sobre a atitude na vida.

Por permitir que o jogador influencie o jogo através da sua atitude, inclusive fingimento, é possível encontrar no póquer eco para aquilo que sucede na vida, em que tantas vezes a atitude dita o sucesso ou fracasso pessoal, em que o fingimento adquire muita importância para fazer passar imagens falsas daquilo que cada um é ou da vida que gostaria de ter.

Tal como na vida, a mão de cartas, ou qualidades pessoais, pode nem ser a melhor, mas se pela via da atitude houver ousadia e esperteza para assustar os outros e levá-los temer a nossa posição na mesa ou capacidades, quem sabe não sairemos vencedores apesar da eventual mediocridade que reine dentro de nós. Não é possível que assim seja no desporto, na política, na televisão ou numa função qualquer de uma empresa qualquer?

Todos conhecemos histórias de pessoas que eram supostamente dotadas e não foram longe, e de outras que do nada conseguiram triunfar: eis aí a essência do póquer, também, pois o valor do jogo que se tenha e mãos não chega para validar a nossa capacidade, há que ir a jogo, na altura certa, com a atitude certa, adequando a estratégia aos adversários.

O descaramento amealha pontos em ambos, póquer e vida, porque os prec avidos e medrosos preferem resguardar-se na sua posição e esperar por melhores tempos.

Para não falar do efeito bola de neve. Assim como na vida, quando uma coisa corre bem e calha de mais duas consecutivas correrem, a confiança leva a que tudo comece a parecer correr bem, também no póquer uma série de mãos vencedores leva à confiança de que se vai ganhar porque se tem o baralho de feição.

Na vida não se ganha sem inteligência emocional, independentemente das capacidades e qualidade de cada um, tal como no póquer qualquer atitude imprópria e desmedida anula a vitória, que na mente parecia estar a priori confirmada.

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Sobre o dom de ouvir os outros

47543wDfC_w Nunca direi, a alguém que leia livros periodicamente, que não tem o dom de escutar os outros. Quem passa trezentas páginas estático e mudo, seguindo o curso das palavras impressas, não só ouve bem como ouve muito bem.

As pessoas podem ser impacientes no contacto presencial umas com as outras, ao ponto de não se escutarem, mas só a falta de delicadeza poderá explicar que alguém que leia livros não o escute, nunca a inexistências da virtude de auscultar.

Se todos lêssemos mais, saberíamos facilmente que a melhor maneira de proferir um discurso é dando-o a ler ao seu destinatário: eis a via preferencial para se ouvir bem.

Outra coisa completamente distinta é o velcro que age como porteiro do que tem permissão de entrar pelo ouvido e alterar alguma coisa dentro da arrumação da mente, e o que não passa do portão de entrada ou tímpano.

No uso convencional, ouvir bem é permitir a entrada, algo que merece que se pense sobre que variáveis ou critérios se jogam sempre que alguém fala e ao ouvido chega a informação. Atentando no comum hábito de avisar o destinatário da mensagem para prestar bem atenção, talvez a atenção seja uma dessas variáveis. Porém, algo mais terá de existir, visto que a repetição de uma mensagem não garante o seu processamento: há ainda certamente a disponibilidade interna para o fazer.

Sobre a disponibilidade interna muito pouco sei especular, talvez porque o cerébro é o enigma maior que temos pela frente, embora haja quem prefira ir primeiro a Marte ou investigar outras espécies a fundo e ver se estão próximas da nossa. Arriscaria, no entanto, um dos eventuais agentes da disponibilidade interna, que é a hierarquização das mentes: se a minha mente reconhece-se superior à do meu interlocutor, por motivos alheios ao entendimento, talvez a disponibilidade para ouvir seja menor, e as acusações de arrogância possam fazer algum sentido.

Arrogância que, para os que não sabem, é irmã gémea da autonomia de pensamento, mais popular que esta, diga-se, pois é bastante comum chamar arrogante a quem pensa por si e preza cultivar ideias próprias como filosofia de vida. Pela escrita não há arrogância, ouve-se tudo em silêncio, sem interferir na mensagem e por isso não existe maior dom de ouvir como o acto de ler.

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Sobre o sofrimento como caminho indispensável

87017YEhD_w Há sempre quem diga que de um leque de aspectos negativos de uma dada questão existe um bem positivo, como se do sofrimento, angústia, consternação e ansiedade possa advir sempre algo benéfico para o sujeito que passe por isso, nem que seja a aprendizagem e o crescimento interior.

Tais considerações têm interesse de forma retrospectiva, mas no momento em que se sofre as devidas consequências pouca ou nada importam para a aliviação do mal em causa.

Com esse optimismo exacerbado paira a ideia de que há um sentido superior para tudo, que os fracassos, desaires, interregnos ou retrocessos fazem parte de um percurso previsto que confere uma aprendizagem prevista. Este tipo de filosofia implica ainda o reconhecimento de que o sofrimento é uma via para o alcance dos objectivos e que o sofrer compensa, desencorajando implicitamente a tentativa de buscar a mesmo meta por um caminho mais confortável.

Nem a aprendizagem e percurso foram previstos, caso contrário já se saberia quem foi que previu, nem o sofrimento é um fardo incontornável. De facto, só o risco de exclusão social e alienamento das fileiras da normalidade impede que haja mais revoltas contra a ordem natural das coisas, ou por outra, contra a sedimentação natural das práticas e procedimentos, que ninguém questiona ou por falta de coragem ou por ser incapaz de reparar nelas.

Aprendi que a mente tem a insólita capacidade de dotar de sentido praticamente tudo, com a condição de acreditar nessa versão das coisas, e isto explica porque motivo se chega ao fim de uma etapa e se consegue ver as peças do enigma a encaixar, mas nunca nos perguntemos se o enigma é mesmo aquele ou não. A nossa liberdade mede-se também pela margem de manobra para fazer diferente.

Os aspectos negativos, custosos ao ser humano, não devem ser vistos como irremediáveis etapas da vida, imutáveis e indispensáveis: isso é apelar à passividade, condição estranha a tudo quanto fizemos enquanto civilização para contrariar as leis da Natureza, essas sim fixas e irremediáveis se nada em contrário for feito para o impedir.

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Sobre a tecnologia enquanto motor da escravidão laboral

52600vCEB_w É inintelegível como pode a tecnologia estar hoje tão adiantada face ao passado mas nunca como agora o ser humano ser tão escravo do trabalho. Afinal, de que adianta inventar um programa computacional que execute em trinta minutos o trabalho outrora durava um dia inteiro, se, do ponto de vista do trabalhador, o que irá suceder é que terá de passar a produzir diariamente o equivalente a vinte dias de trabalho de então?

Questionadas sobre o futuro, muitas pessoas diriam convictamente que as pessoas terão de fazer menos porque as máquinas farão mais. Ilusão pura em projecções que têm tanto de bonitas como de irreais quando o presente de hoje, que outrora foi o futuro projectável, mostra que não foi o automóvel, o computador pessoal, a internet ou o telemóvel que nos fizeram trabalhar menos: a tecnologia tem vindo a ampliar o trabalho, levando a que cada vez se trabalhe mais.

A falta de memória ou uma forte política de relativização impedem que nos detenhamos nos enormes progressos que a tecnologia incrementou em tão poucas décadas e de os esgrimir como argumentos irrefutáveis rumo a um ganhar qualidade de vida, não em bens materiais, pois esses a tecnologia tem sabido guarnecer com mestria, mas em bens imateriais como o tempo livre e a paz de espírito.

Nos domínios da comunicação e transportes, a tecnologia permite hoje maravilhas inquestionáveis que nos deveriam fazer pensar em ter mais férias ou então em ter um dia mais de descanso por semana: onde está o impedimento para que tal aconteça, que não no comum alheamento dos que executam tarefas sem raciocinar sobre o que estão a fazer? Se o cientista, o agricultor, o advogado, o polícia, o camionista trabalhassem menos um dia por semana, estariam ainda assim a fazer mais do que os seus antepassados fazia numa semana. Porquê trabalhar desalmadamente na direcção do futuro, se nunca chega o tempo de apreciar e beneficiar das facilidades da tecnologia e por fim viver? Há que quebrar certos dogmas sustentados por teorias económicas, sociais e laborais, que valem muito para um colectivo abstracto que, representando todos, representa nenhum de nós.

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