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Sobre o elogio e a crítica

No contacto com os outros, levado a cabo dia após dia, assim como sempre que sobre situações externas recai o olhar pessoal, a crítica assume-se como alternativa mais apetecível do que o elogio, por razões diversas.
O hábito de elogiar dá conta de ser mais árduo de garantir, talvez por meras considerações de honra e poder. A pessoa que elogia, comparada à que critica, presta um tributo ao outro, indicando pelo elogio que aprecia o nível e provação afecta ao outro. Nem sempre estamos dispostos a mostrar ao outro a nossa apreciação positiva do seu trabalho, esforço ou resultado, criamos em nós uma teia de vergonha, um rancor mesquinho que nos leva acreditar nos estamos a inferiorizar ao outro, para mal do ego pessoal.
Também é verdade que o elogio é tanto mais efusivo e fácil na ignorância do que na sabedoria, apesar de haverem excepções, sobretudo porque quanto mais sabemos menos certos e seguros estamos do valor e utilidade de algo.
Não encontro na sociedade o hábito de elogiar, encontrando em excesso a mania de criticar tudo e todos. Muitos não se aperceberam, ainda, que um elogio pode temperar e abrir a porta à aceitação de uma crítica, ou pode ser feito depois de um crítica feroz para mostrar que os mesmos olhos que rejeitam são também capazes de apreciar, muito útil em alguns momentos.
Tal dificuldade em elogiar é expressamente notória não só pela frequência com que o fazemos, como pela forma com que o fazemos. Há elogios que surgem apenas para contrapor fraquezas, ou para arremessar críticas simultâneas por sua via.
Derivações à parte, aproveito para apelar ao elogio, para que se cultive o optimismo, mas essencialmente porque não raro eles surgem inesperadamente, tornando risonho algum momento da vida. Porque não juntar o útil ao agradável, engolir o ego, e surpreender o outro com elogios, para bem dum melhor e verdadeiro dia-a-dia?
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Sobre o planeta em risco

Vende-se por todo o lado a ideia de que vivemos num mundo pior, cheio de desastres ambientais, naturais, ideológicos, éticos ou culturais contra a integridade do planeta. Tal avalanche, vista a olho nu, parece credível e rapidamente lhe sucede a desacreditação da qualidade do nosso planeta.
Tenho momentos de maior susceptibilidade a estas fés pessimistas, mas tento ao máximo comedir-me para não comprometer a racionalidade.
Ouvi já dizer que a razão deste sentimento de piora é resultado directo do aumento e rapidez do fluxo informativo. Arrisco dizer que é consequência disso e dos medos que cada evento gera, pois noto que depois de qualquer catástrofe ou notícia mais perniciosa, o foco de quem noticia volta-se para situações homólogas, criando um aura de presença do problema.
Cabe-me a mim dizer, talvez, que isto de se crer num mundo pior ou melhor, é uma empresa de humanos para humanos. O mundo nem está pior, nem melhor, o mundo abarca os homens e tudo o resto, logo o mundo é produto de tudo. Isto para recordar, apenas, que quando falamos no estado do mundo, frequentemente lhe atribuímos vontade e existência humana, vendendo depois a noção de que está em sofrimento.
Quem sofre e se desgasta com o estado do mundo, somos nós e apenas nós. Sugiro que se passe a falar mais nós, sempre que se trata de assuntos afectos ao mundo, dado que assim a perspectiva muda de figura, já que todo o egoísta se toca quando lhe passam o estandarte de primeira pessoa.
Isto de acharmos o mundo uma entidade, cria uma impessoalidade crítica, e faz-nos sofrer em no lugar de incitar à participação: parece que choramos a dor dos outros, quando no fundo, só com uma perspectiva nada condizente com a inteligência, não vemos que o ataque é pessoal, e que urge, portanto, um contragolpe à altura.
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Sobre as mãos

Passei por um grupo de operários na rua e não deixei de reparar no aspecto e condição das respectivas mãos. Fui levado a pensar nas mãos, enquanto ferramenta perfeita, enquanto desafio para os utópicos da robótica.
Tomo a ocasião presente para homenagear a biologia das mãos, com todo o esplendor que as suas funcionalidades e versatilidades lhes proporcionam.
Não o notamos de imediato, mas pelas mãos passa um fluxo de objectos tremendo, bem como é o concretizar de muitos desejos, acções, actividades e comunicações.
Não me recordo de uma parte do corpo que some a si tanta importância no que toca a processos físicos.
A mão paga, a mão acena, a mão repreende, a mão joga, a mão atira, a mão protege, a mão expõe, a mão compõe, a mão aquece, a mão afasta.
Pela mão nos lançamos nos vícios da vida, e também por ela nos identificamos ao mundo. É pena que não esteja tão bem cotada como outras partes do corpo, que parecem tão místicas, mas que no fundo são apenas o reservatório e a via da procriação.
Convido todos a fazerem um culto às mãos, pois merecem, nem que seja pelas sucessivas agressões a que são sujeitas, pelo frio, pelo vidro, pela faca, pelo calor, pelos pesos.
Não me lembro de escrever um texto tão descritivo e enumerador. Presumo que seja sintomático da inarrável flexibilidade do utensílio em questão.
Os operários que vi tinham umas mãos consumidas pela labuta, sinal da ampla dependência que as suas profissões representam sobre as virtudes das mãos. A protecção das mesmas, ainda que profícua no evitar de desgaste, só atrapalha a sensibilidade e o poder manual, prova mais que óbvia de que, a perfeições, não é concedido o direito de anexar pendentes, pois retiram a primazia à obra-prima.
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Sobre o uso de calão

O calão apresenta-se para a língua como o dinheiro se apresenta para as classes sociais, ele dá-se à proeza de tentar dissecar a fronteira que separa diferentes patamares culturais.
Embora sinta o peso repressivo para escrever o que quero, arrisco dizer que o calão tem estampado em si a hipocrisia dos que se querem emancipar do povo, e que se servem da sua não utilização para promover a sua imagem de pessoa culta.
Obrigo-me a contrapor, porém, que não sou apologista do uso desenfreado, muito menos desinibido, da linguagem calona, dado que esta se esgota na sua mensagem acrescentando efectivamente algo apenas em situações próprias.
Há muito que me pergunto, se não será de todo uma cretinice conceber no campo lexical, palavras que por retratarem certos estigmas culturais ou haverem ganho conotações depreciativas e intensas, devam ser subtraídas do linguajar normal.
Acho que qualquer tentativa de estratificação social, deve ser encorajada mais no sentido da ampliação do universo dialéctico de cada um do que pela restrição, de qualquer natureza, aos termos existentes.
Julgo que esta aversão ao calão, é vendida como ideia de pecado, mas a verdade é que o pecado não está nas palavras, está em nós. Há usos e usos a dar ao calão, assim como é possível massacrar pessoas sem recorrer a palavras feias, expressão que tantos tutores gostam de lembrar aos educandos.
O fenómeno do calão, em termos nacionais, define-se muita pelo desdobramento de sentidos e utilizações para termos calões, que funcionam como uma muleta para muitas frases em que escasseiam alternativas.
Gostava que não se cagassem sentenças merdosas quando se fala de liberdade de expressão por um lado e se fode o vocabulário com lacres de quem se acha zelador da língua e que nada mais é do que um polícia fútil de um trânsito transcendente a si.
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Sobre a interacção com os velhos

Estando à vontade para falar do assunto, retrato hoje o usufruto que qualquer jovem pode naturalmente aceder pela interacção, contacto e envolvimento com todos aqueles que designamos idosos, por puro eufemismo respeitoso.
Contrariamente a uma possível leitura apontando para um acréscimo de relacionamento entre jovens e velhos, devido ao crescimento da fatia destes últimos na sociedade, a minha sensibilidade diz-me exactamente o contrário, que se assiste sim a uma diminuição de contacto entre as duas gerações.
Aparentemente incongruentes em estilo, ideais e energia, velhos e jovens têm muito a aprender e repreender mutuamente, extraindo do convívio ganhos concordantes com as necessidades de cada um.
Se dos jovens, os velhos podem ser impelidos a mais dinamismo e esforço mental para saudar e acompanhar correntes mentais mais desafiantes e rebeldes, não menos verdade é afirmar que os jovens, através do velhos, domam a rapidez com que pautam os seus actos e decisões, a jeito de contrariar suas leviandades, e podem sempre ganhar noções de civilidade, comungar com as preocupações daqueles que vivem as últimas décadas e que sofrem os efeitos das vicissitudes de toda uma vida.
Parte de mim, hoje, é produto da interacção velhos-novos, concretizada mormente pelos laços de avós e neto, retendo comigo ganhos ao nível da maturidade provenientes dessa relação.
Nem todos poderão procurar estas ligações nas famílias, já se sabe, mas atentamente se descobrem velhos um pouco por todo lado, sempre observantes e expectantes por um contacto qualquer que lhes permita travar diálogos.
Alguma da minha inadequação à juventude, nos tópicos gerais da sua existência, parte de uma ponte de ligação mais pronunciada ao lado de quem nos vê com olhos mais enrugados, cujo barulho é só o de quem se preocupa e quer evitar complicações.
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Sobre a celeridade das férias

Chega o Verão, as escolas encerram, os escritórios esvaziam, tudo se esvai de moldura humana excepto os destinos turísticos ou afectos ao lazer. As férias são o momento alto, geralmente, de cada ano, podendo figurar como vingança de um rol de inglórias ou apresentar-se como o coroar de um conjunto de vitórias, sendo mais natural, contudo, situar-se algures no meio destes cenários.
Independente da duração das férias, no cômputo geral identifica-se um sentimento generalizado de celeridade nas férias, como se houvesse uma inconsciência do passar do tempo para depois se acordar perto do retomar de actividades e haver lugar a lamentos e lamúrias.
Entre a juventude, a febre do nada fazer, que em suma resume muitas ocorrências, como o ir à praia, o assistir a séries, filmes e novelas na televisão, ou o jogar nos computadores e consolas, presta um grande contributo para essa fugacidade sentida no decorrer das férias. Esta parte, aliás, da clássica noção de que para se poder apreciar é necessários reparar.
Já os adultos preenchem a tradicional quinzena espalmados por aí, queimando-se como torradas, portando um leque de parafernálias ditas indispensáveis, caminhando para lá e para cá a ritmos preguiçosos, dormindo e dormitando um pouco por todo o lado. Todos nos subtraímos à noção de que aqueles são de facto os escassos dias do ano em que não há dependências intrusas vindas de fora da família, devendo por isso dar azo a algo mais do que as previsíveis actividades.
Se nos queixamos da rapidez com que percorremos as férias, talvez em muito se deva a um assumir, típico no resto do ano, de rotinas aparentemente distintas daquelas levadas no restante ano, mas que na sua polpa mantêm as contra-indicações das outras. As férias são a prova do quão forte é a política da mecanização e da absorção da consciência, de que tanto nos queixamos ao longo do ano.
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Sobre os ciclos de sono

A ritmos cada vez mais frenéticos, o sono tem sido o patinho feio da vida privada, sacrificado para dar azo ao cumprimento de todas as rotinas necessárias.
Tendo por base a ideia de que se o deixassem o ser humano descansaria um pouco mais do que o tempo que está acordado, haveria lugar a um contínuo deslocamento do sono em cerca de 1 ou 2 horas diárias. Isto é um pouco o que sucede com a juventude em férias que altera a sua rotina normal de sono pela liberdade de dormir até saciar, implicando isso alteração do estado de vigília.
Ocorre então que as exigências do meio, distribuídas pelos vários papéis desempenhados por cada um, exige que se abdique da actividade dormitória para que haja espaço de manobra para concluir tudo o que é pedido. Isso acontece com os adultos que subtraem horas de sono em troca de algum prazer ao serão ou aos jovens que entram com os estudos pela noite.
Quem já experimentou sabe que dormir pouco tem efeitos positivos na força da preguiça ao levantar bem como na sonolência diurna, pois curiosamente quem dorme mais parece querer dormir ainda mais.
Se a serventia de dormir pouco é assumida na obtenção de tempo para expedição de tarefas, não se pode dizer que seja o cérebro neutro a tal prática. Apelando desta vez à experiência de quem já dormiu até fartar, julgo ser de comum acordo que um acordar natural e saciado dá lugar a um dia de maior vigor mental, com disposição mais positiva ou com ânimo menos pesado.
Afastada a hipótese de dormir correctamente, recorre-se então ao acumular de cansaço pelas semanas, ressarcindo o corpo por vezes no decorrer dos dias e projectando no fim-de-semana a recuperação. Tal hábito, faz lembrar alguém que respira naturalmente aos fins-de-semana e que passa depois a semana a mergulhar em água e submergir apenas para respirar o tempo suficiente para não sucumbir.
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Sobre a utilidade das caminhadas

Cada vez mais prescritas pelos médicos, as aparentemente monótonas caminhadas prestam-se a bem mais do que regular os níveis de colesterol ou obesidade.
Considerando-me um caminhante médio, reconheço nas caminhadas um grande veículo de balanceamento biológico mas também psicológico.
Quando começo a andar, noto que a mente se liberta face ao que a rodeia, remetendo a sua actividade para as inquietações que carrega, permitindo, à imagem de um filme, ir despressurizando a tensão acumulada e irracional que tanto admoesta a paz de espírito em momentos de menor clarividência.
Percorro distâncias consideráveis absorto nas ideias que a mente vai encadeando, sendo muitas delas conhecidas dos leitores deste espaço, dado culminarem com forte frequência em assuntos passíveis de dissertação.
Não me espantaria que se perguntasse, portanto, se tantas outras actividades não teriam semelhantes efeitos psicológicos de libertação, ao que assentiria fazendo questão de lembrar que nenhuma outra actividade pode concorrer em popularidade com o tradicional e clássico acto de caminhar, cuja difusão entre nós é biologicamente indiscutível.
Serve pois publicitar que quando um grande mal atormenta a mente, o pior a fazer é meter-se na cama sem conseguir dormir, sendo de bem maior proveito cansar as pernas e o corpo em geral numa caminhada, acumulando a isso a meditação no assunto feita numa perspectiva distinta daquela feita debaixo de elevados índices de tensão. Fica-se então habilitado a dormir com mais vontade devido ao cansaço físico e mais tranquilo pelo altamente provável relaxamento que a actividade provocou. Novas ideias surgem também das caminhadas, servindo-se da paisagem como inspiração e trazendo possíveis novidades às comuns perturbações da generalidade dos comuns mortais, que suspira sem parar com ameaças intermitentes.
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Sobre a pedagogia do vendedor

As características desejáveis num vendedor devem superar as de um mero intermediário entre o cliente e a mercadoria.
Nem sempre a presença do cliente simboliza a certeza daquilo que pretende, podendo apenas manifestar um impulso base sobre o qual se concretiza ou não uma compra. Cabe ao vendedor saber clarificar no cliente o seu desejo, abrindo também alas à projecção da sua arte e técnica de venda.
Calha de acontecer que o cliente faz-se presente num estabelecimento apostando as suas incertezas na experiência que assume existir naquele que a atende, tendo pois ambições de que este por conselhos, sugestões ou recomendações, faça a sua pedagogia de vendedor, crucial para que o cliente crie confiança no produto que julga querer adquirir.
Aconteceu-me já, porém, chegar a um balcão e dar com um vendedor tão ou mais ignorante que o próprio cliente, não se imiscuindo do auxílio ao cliente, ficando expectante a uma decisão por parte deste, comprometendo o à vontade deste na matéria. Tais pessoas não reúnem condições para liderar o atendimento a clientes, devendo ser, caso persistam nessa filosofia, afastados desses palcos do comércio a que chamamos balcões.
Um não entendimento da necessidade de participar no processo de aquisição, por parte do vendedor, é uma pista para o seu não entendimento de que, salvo casos de obstinação do cliente ao acercar-se do vendedor, qualquer processo de compra exige do vendedor uma atitude de comprador simultânea aos seus deveres de promotor das vendas. Justiça seja feita aos que pecam por defeito, pois também já contactei com vendedores que apostam no exagero do seu papel de cliente, ultrapassando a meta de clarificação do cliente e dando a sensação de genuínos impostores, teatralizando as vendas e abrindo vagas ao sensacionalismo. Vender não é o simétrico de comprar, é tão só o comprar a confiança com a venda de ideias.
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Sobre a recorrência à comparação

O ser humano, talvez porque se transformou num ser corrupto ou porque sempre o foi e simplesmente tornou mais profícua tal capacidade, cerceia-se em sociedade da necessidade de comparações para assegurar que cumpre os deveres assumidos.
O conceito de mercado, aplicado a humanos, parece incutir a necessidade de indicadores, avaliações parametrizadas às vertentes diversas de cada um.
A serventia concreta das avaliações é dar notoriedade a alguns mais dotados nos parâmetros passíveis de analise analítica, sempre subjectivos dado que feito por humanos para humanos. Todos os que se desfasam dos tópicos avaliados vivem nos subúrbios do ideal, ficando à partida limitados de oportunidade.
Poder-me-ão dizer que tudo isso, essa dinâmica de gestão, é natural e inevitável, podendo eu concordar até certo ponto. No mais direi apenas que é falta de respeito pela liberdade de perspectivas criar mecanismos formais que estigmatizem todos os que não são os melhores em dadas funções, mecanismos esses que em nada acrescentam valor aos próprios mecanismos naturais, muito à imagem da teoria de Darwin sobre sobrevivência dos mais bem adaptados.
Não me espanta a rivalidade cerrada e permanente da actualidade em que situações escolares, profissionais, económicas ou de aceitação social sejam focadas continuamente e analisadas até à exaustão gerando neuroses nem sempre óbvias.
Não se pode falar em liberdade enquanto as actividade de estudo, emprego ou vida íntima estejam umbilicalmente ligadas à necessidade de situar os desempenhos pessoais e de conviver com a noção do valor atribuído a cada um pelos indicadores que a sociedade tão pacificamente vai criando para permitir o tratamento das pessoas na base do que é feito no comércio mobiliário.
Muito do buraco negro moral a que chegamos, parte e termina na competição constante que nos mina a vontade de ter ideias diferentes e opções originais.
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Sobre os prazos para aprender

Atento hoje a escrite para um erro, que surge da infeliz avaliação de que uma matéria só é avaliada pela sua complexidade técnica, descurando o factor tempo como elemento tão ou mais decisivo que esta.
Dá-se muitas vezes, em conversas entre pares, a discussão das dificuldades de certos assuntos no que toca ao seu estudo, de onde surgem sempre desacordos ou mesmo auto promoções de determinados intervenientes face ao à vontade, quase sempre exagerado, com que dominam as matérias.
Calha de se cair na tentação de achar que as matérias, e consequentemente os resultados das avaliações a elas, devem ser consideradas de forma descontextualizada. Não há dúvidas de que há duas formas de se complicar a vida a um estudante: ou leccionar assuntos complicados, ou dar-lhe tão pouco tempo para adquirir o conhecimento que a matéria se torna complicada indepentemente do resto.
Nem sempre está claro para todos a questão da temporização, pois quando se avaliam as matérias no seu desafio intelectual, dificilmente se considera o factor relógio, e como tal cai-se no erro de tornar injustas certas afirmações.
Estando este mundo repleto de informações, com tendências para agudizar cada vez mais a situação, o grande desafio do estudante deixa de ser o ideal de adquirir o conhecimento sem achar preocupado com prazos, e passa a ser conciliar o processo de aprendizagem com toda a estruturação de calendário que lhe é dada para o conseguir de forma regular.
Não deixo de me perguntar de que forma a inclusão deste agreste perturbador do espaço temporal necessário à sedimentação de conhecimentos, a calendarização apertada, não terá efeitos já hoje nas formações ministradas. Não se compreende qual é a pressa, qual o frenesim de leccionar tanta coisa de forma mecanizada e pouco saudável. Pois que se aprenda menos então, já que os prazos diminuem sempre.
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Sobre a inutilidade das contas de e-mail

Embora surgidas com oportunismo e potencialidades notáveis, a verdade é que as contas de e-mail pessoais, longe de facilitar e ampliar o recurso à escrita que outrora passou pelas agora praticamente obsoletas cartas redigidas à mão, caíram num beco que as tem mutado para fins longínquos ao salutar exercício da escrita.
As mesmas, são hoje muito mais um bilhete de identidade virtual, cheio de limitações de segurança para o poder ser habilitadamente, do que uma ferramenta de real e popular utilidade no processo de comunicação escrita.
Excluo do âmbito desta intervenção, os exemplos de caixas de correio virtuais do tipo profissional ou que não dependam do livre arbítrio das vidas pessoais, pois aí a utilização atribuída é imaculada, não fossem as regras e práticas adoptadas.
Voltando àquelas do tipo pessoal, são hoje um reservatório de tudo o que não queremos, palhaçada em excesso, melodramas em excesso ou um sem fim de trafulhices em excesso. Qualquer um sabe dizer quase sem pestanejar quantas mensagens personalizadas recebeu no espaço de meses. A facilidade com que se mandam mensagens a grupos quase extinguiu a existência de remetentes singulares, dando lugar ao desrespeito pela individualidade de cada ser humano .
A partir do momento em que deixa de haver mensagens, devidamente habilitadas a tal designação, a circular, não faz sentido chamar correio à conta de e-mail, porque não funciona como tal, passa a ser qual montra virtual, no caso dos fins publicitários ou poltrona virtual, no caso dos assuntos recreativos mais diversos e maçadores.
Esta é talvez a maior das incoerências da Internet. Não havendo como rejeitar a conta pessoal e requisitar um alternativa mais decente, obrigam-nos a conviver com tamanho colosso da inutilidade para garantir todas as vertentes da net.
A todos os que me mandam mensagens com inutilidades eu peço que parem e que entendam que só estão a contribuir para uma vontade cada vez maior de vos ignorar.
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Sobre a motivação dos grupos

Com a população mundial em imparável ascensão em quantidade, a consequente existência de grupos cada vez maiores traz à tona problemáticas que só a quantidade pode catapultar para cenários de maior relevância.
Sendo certo que qualquer união, agrupamento ou equipa tem por base um assumir de metas colectivas, porventura alcançáveis mediante trabalho solidário e colectivizado, torna-se decisivo para o sucesso global, a manutenção de índices de motivação conciliáveis com a dureza e dificuldade das metas a alcançar.
Só quem não tenha experimentado é que desconhece todo o rol de condicionantes do bom desempenho colectivo. Quer se aborde a questão da existência de expectativas iniciais e pessoais ímpares entre os elementos, que motivam o defraudamento ou superação de expectativas, ou o advento das falhas de comunicação, que gera desequilíbrios internos, não faltam atritos com potencial para minar a saúde das ligações que sustentam a união.
Dá-se depois a criação de quezílias e inimizades internas, pois diferentes motivações acarretam obrigatoriamente desiguais respostas e comportamentos, havendo lugar a juízos de valor e alterações de posturas entre pessoas.
A tão central questão da motivação não é de forma alguma uma questão estática na sua prevalência e preponderância, sendo inclusive mutável pelo acumular de situações como as descritas.
Transversalmente a tudo isto, cabe a alguns, em tempos diferentes ou não, ainda pensar nos tais desideratos iniciais e apelar à desvalorização de descontentamentos bem como à concentração nos passos seguintes rumo à concretização dos objectivos.
Há medida que os grupos crescem, havendo nações que levam ao extremo a noção de grupo, por mais diplomata que se possa ser e ambicionar ser, será sempre árduo criar consonância e harmonia, com o perigo de se acabar a trabalhar sozinho.
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Sobre a febre dos currículos

Os currículos de hoje estão repletos de certificados e comprovativos de formação, entre outros diplomas e atestados, funcionando os mesmos como comprovativos de formação e de qualidade, ainda que aqui seja preciso um dose de calma.
Apesar de ser obrigado a ressalvar a serventia de tais documentos, pois a época actual não é dada a palavras de honra, julgo que há uma mentalidade para a busca e sobrevalorização incessante destes documentos. A sua sobrevalorização acarreta muitas vezes um esforço desmedido no sentido de obter, por meios lícitos ou não, classificações honrosas, o que, quando não controlado, deixa de ser salutar e de ser manifestamente compatível com os propósitos de qualquer curso: a aprendizagem.
Quando não se aproveitam os cursos com naturalidade, trabalhando o melhor possível dentro das regras do jogo, qualquer resultado final injusto e desequilibrado.
A concorrência é a grande matriarca dos caçadores de certificados, pois age como repelente mental da normalidade, criando estados de tensão que desencadeiam respostas de natureza atípica e anormal. Claro está que na busca de um emprego, por muito que não se deseje, o currículo constitui peça fundamental de análise, mas a questão, do ponto de vista de quem pretende empregar-se, deve ser lançada de outro miradouro. Falei algumas vezes a amigos, e passo a partilhar: não será preferível levar uma vida correcta e normal, obtendo resultados justos face às capacidades, os quais podem nem sempre chegar a excelentes, mas correr o risco de ser admitido e superar as expectativas? Assim evitar-se-ia o tombo sofrido por muitos pajens dos certificados, que são integrados nas empresas como autênticos supra-sumos da sabedoria técnica, e que depois fraquejam porque não reúnem valias ao nível da presença relacional entre os colegas ou se retraem quando são chamados a momentos da verdade. É preciso aprender a conviver com as limitações sem frustrações e aproveitar as devidas ocasiões para contraria-las, nunca o contrário.
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Sobre a desprofissionalização dos políticos

Nenhum ramo de actividade é mais sacrificado pelo povo do que a carreira de político. Os próprios conhecem e reconhecem esses estigmas, devendo até concordar, nos seus íntimos, com algumas das alegações costumais.
A parte penalizadora que não abrange as questões do foro da honestidade, passa de alguma forma pela não inclusão dessa classe no âmbito da lista de profissões do povo. Tal exclusão prende-se com a ideia do trabalho braçal ser fisicamente desgastante e de a classe política viver o seu dia-a-dia no seio de certas regalias que contra balanceiam, na perspectiva do povo, eventual esforço que dispendam.
Cabe-me a mim, perguntar também se é de facto interessante que a Política seja profissão. Julgo que um sim extingue diametralmente a visão da política como dever público ou actividade de intervenção social aberta ao cidadão comum. Uma política como profissão envolve rivalidade e criação dos subterrâneos jogos de poder que controlam peças num tabuleiro de relações e dinheiro. A necessidade de vingar num meio tão perverso como é o dos ideais, das argumentações ou dos convencimentos, motiva todo um esquecer das premissas e enquadramentos da política como entidade vital à existências de sociedades e nações. Daí surge a inoperacionalidade apontada aos políticos, bem como à sua repetição de hábitos e vícios.
O povo poderá ter a sua razão ao não aclamar nem identificar os políticos como operários, pois instintivamente assume uma posição que a lógica consegue suportar. A descrença e o vinco de descredibilização progressiva dos políticos, por parte do povo, em nada abona as necessidades de ambos. Privados de povo, os políticos recorrem a sensacionalismos e demagogias para fazer chegar e se fazerem ouvir e respeitar. O povo, privado de políticos, trabalha intervalando a labuta com desdém dos políticos, que, apesar de tudo, continuam sem aceitação como profissionais mas mantêm-se no recebimento mensal pelos seus préstimos. A pergunta é : de quem?
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Sobre os milagres numa sociedade que por um lado quer rigor e transparência na ciência e por outro esbanja opacidade e clausura intelectual

Miracle - Milan Kunc (1994)

Os milagres constituem para os crentes o culminar da prova de existência de um elo supremo, constituindo por isso um auge da fé pessoal, capaz de catapultar os espírito para altos índices de confiança, motivação, obediência ou êxtase.
Numa perspectiva talvez mais arrojada, pergunto-me até que ponto não é lícito pensar que alternativamente à resposta profética vislumbrada num qualquer evento tido como milagre, aquilo a que se chame milagre tenha mais a ver com o humano que o proclama do que com o próprio Deus em quem o mesmo atribui os louros do evento. 

O milagre pode ser mundano como as demais coisas e ser resumido essencialmente à falta de capacidade de acreditar de um ser, sobrepondo-se à fábula da intervenção divina. Quem falar num milagre poderá estar a discursar sobre si próprio e sua limitação emocional para expectar resultados probabilisticamente raros e menos prováveis.

Claro está que afirmar tal cenário é combater um colossal trunfo do campo religioso, pelo que dificilmente seria pacífica a consensualização geral de tal ideia. Não é conveniente para a indústria da fé, se é que me permitem abordar a questão nestes termos, deixar ganhar ânimo novos entendimentos ou, mais precisamente, esta questão dos milagres, por razões óbvias que também contemplam o facto de ser pouco encorajador acreditar num Deus que não se dá a intervenções terrenas para causas supostamente à sua altura.

Agora o existir, até de uma burocracia para permitir a beatificação de pessoas que inclui a existência de um milagre é, no seu todo, transformar os milagres no componente monetário necessário a tal ascensão e como tal, para mim, é enovelar a verdade dos milagres com outras motivações. Julgo que não é comportável com o nível científico de hoje viver numa sociedade que por um lado quer rigor e transparência na ciência e por outro esbanja opacidade e clausura intelectual.


Publicação original: 07/2007
Revisão: 09/2023
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Sobre realidades nacionais

Um dos problemas de quem formula uma crítica resulta no aproveitamento consequente que é feito, no sentido de ridicularizar por radicalização o argumento sustentador da posição expressa.
Aqui entre nós, portugueses, este efeito é a maior burocracia que se pode encontrar, pois retarda excessivamente a colocação em prática de qualquer medida.
Dizia-me há dias alguém, com a qual concordei, que o nosso problema nacional era a escassa profundidade mental que o cidadão comum tem em Portugal. Sendo essa pessoa estrangeira, pareceu-me um desabafo de quem convive num meio diferente daquele onde foi educada.
O fraco esforço intelectual dispendido por muitos de nós, torna-se depois um obstáculo para muitas outras questões do quotidiano, culminando em certos traços perturbadores. Em Portugal confunde-se discussão com zanga, há um estigma contra a educação, que é sintetizado na cómoda ideia de que instruir-se é só para alguns. O tal problema que mencionei acima poderia agora surgir, neste ponto da discussão, para que me fosse lançado o seguinte argumento: Mas então, deveriam os portugueses todos ouvir música clássica e discutir poesia nos autocarros? Não, claramente que não. Os portugueses deveriam era ser um povo que conseguisse discernir sobre as suas vidas, a ponto de não as moldar com argumentos falaciosos que impingem a crença de que sucessivamente se encontram no papel de vítimas e ostracizados, pelo Estado, pela patrão, pelos amigos, pela saúde.
Vivemos a julgar e a evitar culpa nos julgamentos a nosso respeito. Procuramos o consenso, engolindo, a custo de encontrar harmonia, a discórdia com a mentira.
Queremos ser empregados, pois fazemo-nos crer que ser patrão além de ser inalcançável é menos cómodo que sair às 17. Vivemos pelo cómodo. Estudar: incómodo, trabalhar: incómodo, esforçar: incómodo.
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Sobre a escrita inexperiente

Mais que uma vez fui assaltado pela ideia de que redijo despreocupadamente sobre os mais diversos assuntos sem me poder assemelhar aos que o fazem com largos anos de experiência e que escudam os seus argumentos nos vastos anos de vida percorridos.
De todas as vezes encerro a perturbação assumindo que mesmo que um dia venha a desacreditar muito do que hoje escrevo, a verdade é que a juventude (vendo-a como sinónimo de inexperiência) não pode constituir um obstáculo à prática da escrita, acarretando esta as vantagens inerentes.
Não sei atestar se aquilo que escrevo vale mais pelo exercício de reacção em si ou pela mensagem cultivada em cada texto. Custa-me porém acreditar no desvalor das minhas asserções presentes, isto porque de cada nova exposição procuro cercar-me de uma teia argumentativa coesa e válida, sempre combinada com o toque pessoal de estilo e limitação literária.
Assumo que a escrita que produzo ou a leitura que faculto, caso prefiram, é uma oficina de constantes melhoramentos, onde se adquire conhecimento praticando com gosto. Constituindo a minha redacção um foco totalmente dependente da minha iniciativa e gosto pela arte, dificilmente acharia condenável arriscar o não traçar a verdade empírica das coisas pela valorização da verdade teórica, ou de uma verdade teórica possível. Da experiência do blog inicial página recolhi luzes para o futuro, tendo o mesmo culminado neste espaço, no qual até ao momento me sinto confortável no âmbito do respectivo sentido e do significado.
Aposto na escrita também como caminho para algum lado, quer seja ele recto, oblíquo ou mesmo circular. Aposto nela mesmo sem a devida experiência, pois o mais importante é não se deixar quedar na preguiça mental. Mais tarde o tempo permitirá vaticinar de que forma prognostiquei o meu percurso de aspirante a escritor.
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Sobre a conversa de circunstância

Em momentos cujo silêncio seja prenúncio de desconforto bem como em alturas de invulgar proximidade entre pessoas de intimidades pouco habituais, surge a necessidade quase biológica de produzir uma raça de conversa sem fins maiores do que preencher o tempo necessário à conclusão de uma qualquer actividade temporária, da qual ir num elevador com gente conhecida mas pouco familiar constitui um exemplo esclarecedor.

Nesse tipo de momentos as mentes procuram aliviar o fardo de contabilizar o tempo necessário para o término da situação, pela incessante procura de um pretexto para criar conversa e assim acalmar o espírito em simultâneo com a intenção de transmitir uma imagem positiva de si mesmos. O tema mais popular é a meteorologia, talvez porque o embaraço de tais situações modifique o equilíbrio térmico interior, quer por suores quentes quer por calafrios frios. Nos homens surge também o desporto como grande mote para a conversa de circunstância, catalizando a passagem do tempo facilmente.

Sendo estes, eventos que dificilmente se podem treinar, julgo que é um enorme desafio saber contornar situações desta natureza, até porque é por demais inóspito impor à mente um ritmo de trabalho produtivo e exigir dela ideias assertivas quando o contexto é de pressão e tensão.
Outros poderão recorrer a respostas tidas como mais anti-sociais, fechando-se na sua fortaleza mental e não apostando na comunicação como elemento solucionador desses fugazes momentos. Talvez estes saiam vitoriosos nas suas atitudes, dado que não perderão o tempo duplamente como os outros que no fim de contas, perdem o tempo a conversar fiado e perdem o tempo a sentir-se mal ou a puxar vãmente pela cabeça. A escolha é de cada um, mas se há certezas neste assunto, é ela apenas uma: ninguém se esquiva a essas caricaturas da conversação que são as conversas de circunstância, pois elas chegam e partem com a mesma facilidade e autonomia
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Sobre os recintos prisionais

Uma larga maioria das pessoas vive as suas vidas sem se aperceber da realidade das prisões e do seu efeito na adequação da conduta humana.
Longe de ser um perito na matéria, proponho-me unicamente investigar pela forma de reflexão o recurso à prisão como mecanismo de correcção ou penalização.
Desde cedo se soube entender que a privação de liberdade de movimento, constitui uma forma de estorvo para o ser humano. Qualquer um sabe bem o quão crucial é dispersar em determinadas alturas da vida. Ora as prisões aparentam ser essencialmente privações de movimento, que conjugam ainda outras privações humanas. Tenho para mim a ideia de que as prisões cumprem o seu objectivo de penalização recorrendo a um tipo de artifícios diferente daqueles que se esperaria. Os reclusos, em geral, e tanto quanto sei, saem da prisão de alguma maneira corrigidos mais por força do medo e aversão a retornar àquele espaço do que por haverem criado uma introspecção no sentido do entendimento da orla de questões que medeiam um crime. Refiro-me com isto ao uso de um fantasma, criado numa cidade de grades, que visa suster futuros ímpetos criminosos pelo temor, prática que é lamentável.
Podemos falar, então, numa dupla prisão: aquela para onde são mandados os réus e aquela criada na mente dos mesmo, quando saem desses estabelecimentos. Ninguém acredita no poder renovador de uma prisão, dado todos sabermos que não deveras trabalho psicológico construtivo nesse espaço, pelo que se procura evitar o mal criando um mal (-estar) mental.
Todos os cidadãos que contactam com os que retornam à vida normalizada, por força da descrença interior no poder educacional dos recintos prisionais, se tornam também presidiários em si, já que vivem também atemorizados pelas eventuais lacunas do processo de correcção (supostamente) levado a cabo nas prisões.
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